Ativação comportamental na prática: modelo de registro do diário de atividades (prazer e domínio)

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Você prescreve o diário de atividades, explica rápido que o paciente deve anotar prazer e domínio de cada coisa que fizer na semana, e ele volta com três linhas preenchidas e um "esqueci de anotar quase tudo". A ideia por trás do exercício é sólida, mas sem um formato claro de registro ele vira só mais uma tarefa de casa abandonada, e o terapeuta perde justamente o dado que sustentaria a próxima decisão clínica.

Este artigo detalha como estruturar esse diário, o que prazer e domínio significam tecnicamente (não são sinônimos de "coisa boa que aconteceu"), um exemplo comentado de preenchimento e como o registro entra na evolução da sessão em vez de ficar solto numa folha avulsa.

O que é ativação comportamental e por que o diário vem primeiro

A ativação comportamental é uma intervenção da linha comportamental da TCC, direcionada sobretudo a quadros depressivos, que parte de um princípio simples: a depressão reduz o contato da pessoa com reforçadores positivos, o que gera menos atividade, o que gera menos reforço, num ciclo que se retroalimenta. A intervenção trabalha para reverter esse ciclo por meio das próprias ações e escolhas do paciente, não de uma mudança de pensamento como ponto de partida.

Antes de decidir qual comportamento ativar, porém, é preciso saber o que o paciente já está fazendo e como isso se relaciona com o humor dele. Por isso o monitoramento de atividades é descrito na literatura como a primeira etapa da ativação comportamental, e não uma formalidade burocrática: sem esse retrato inicial, tanto terapeuta quanto paciente estão decidindo às cegas o que vale a pena programar para a semana seguinte (Alves & Bonvicini, 2022, citando Stein et al., 2021).

Prazer e domínio: duas dimensões diferentes, não uma nota só

O erro mais comum ao introduzir o diário é tratá-lo como um "diário de coisas boas", pedindo uma nota única de quão bom foi o dia. Prazer e domínio são dimensões distintas e às vezes vão em direções opostas na mesma atividade.

Prazer envolve atividades que despertam sensações agradáveis e de satisfação no momento, como um hobby, um jogo, estar na natureza ou com alguém de quem se gosta.

Domínio envolve atividades que trazem uma sensação de competência ou controle sobre o próprio ambiente, tipicamente ligadas a desenvolvimento de habilidade ou realização de uma tarefa, mesmo que não sejam agradáveis no momento (Barraca, Pérez-Álvarez & Bleda, 2011, apud Alves & Bonvicini, 2022).

Isso explica por que separar as duas notas importa clinicamente. Lavar a louça pode ter prazer baixo e domínio alto. Assistir a uma série pode ter prazer alto e domínio próximo de zero. Um paciente que só acumula atividades de prazer alto e domínio baixo (ou o contrário) está sinalizando um desequilíbrio que o terapeuta só enxerga se as duas notas estiverem separadas, não somadas.

Como estruturar o registro na prática

Não existe uma única planilha oficial para esse diário, e vale tratar a estrutura abaixo como um formato comum na prática clínica, não como uma exigência normativa. A versão mais usada organiza o registro em quatro elementos por linha:

Horário ou bloco do dia. Hora a hora ou em blocos (manhã, início da tarde, fim da tarde, noite), dependendo de quanto detalhe o paciente consegue sustentar sem abandonar o exercício.

Atividade realizada. Descrição breve e concreta, não uma categoria genérica. "Conversei com minha irmã ao telefone por 20 minutos" documenta mais do que "socializei".

Nota de prazer (P). Numa escala de 0 a 10, quanto de satisfação ou prazer a atividade trouxe no momento em que foi feita, não em retrospecto.

Nota de domínio (D). Na mesma escala de 0 a 10, quanto de sensação de competência ou realização a atividade trouxe.

A escala de 0 a 10 para P e D tem raiz na técnica de agendamento de atividades descrita por Beck, Rush, Shaw e Emery em Cognitive Therapy of Depression (1979), e é a mesma lógica de escala numérica que este blog já detalhou no Registro de Pensamentos Disfuncionais (RPD). O ponto importante não é a escala em si, mas que P e D fiquem registrados separadamente, por atividade, e não como uma impressão geral do dia escrita de memória na sessão seguinte.

Um exemplo comentado (caso fictício)

O caso a seguir é fictício, construído só para ilustrar o preenchimento. Nenhum dado real de paciente foi usado.

Paciente: Beatriz, 41 anos, em acompanhamento há 4 semanas por sintomas depressivos moderados, com queixa de "não fazer mais nada além do trabalho e da cama".

Trecho do diário de um sábado:

  • Manhã, ficou na cama até 11h vendo o celular. P: 2. D: 0.
  • Início da tarde, lavou a louça acumulada da semana. P: 1. D: 6.
  • Fim da tarde, saiu para caminhar 20 minutos no quarteirão. P: 4. D: 5.
  • Noite, ligou para uma amiga que não falava há meses. P: 7. D: 3.

Na sessão seguinte, o terapeuta não comenta genericamente "que bom que você saiu de casa". Ele nota, junto com Beatriz, que a atividade de maior domínio (lavar a louça) teve o prazer mais baixo do dia, e a de maior prazer (a ligação) foi a única com iniciativa social, algo que Beatriz havia descrito como evitando há semanas. Esse cruzamento entre as colunas, não uma nota isolada, é o que orienta o que programar para a semana seguinte: talvez uma segunda ligação, ou uma atividade que combine domínio e prazer em vez de forçar mais uma tarefa de casa puramente de produtividade.

Erros comuns que esvaziam o diário

Pedir a nota só no fim do dia, de memória. Prazer e domínio avaliados horas depois tendem a ser contaminados pelo humor do momento do preenchimento, não pela experiência real da atividade. Vale orientar o paciente a anotar logo após cada atividade, mesmo que de forma resumida.

Confundir "nenhuma atividade" com "diário em branco". Ficar na cama o dia todo também é uma atividade que deveria ser registrada, com nota de prazer e domínio geralmente baixas. Um diário com só os "bons momentos" do dia esconde justamente o padrão que a ativação comportamental precisa enxergar.

Somar prazer e domínio numa nota única. Isso mistura as duas informações e faz o terapeuta perder a leitura de desequilíbrio que é o ponto central da técnica, como no exemplo de Beatriz acima.

Não fechar o ciclo na sessão seguinte. Se o paciente preenche o diário e o terapeuta só pergunta "e aí, como foi a semana" sem abrir linha por linha, o exercício perde peso rapidamente, o mesmo problema já descrito neste blog para o RPD.

Do diário de atividades à evolução da sessão

O diário preenchido em casa deveria entrar na evolução como parte do registro clínico, não ficar como anexo solto. Se você documenta em formato BIRP, a revisão do diário costuma entrar no bloco de Comportamento (o que o paciente trouxe da semana) e a discussão sobre os padrões de prazer e domínio entra no bloco de Intervenção. Detalhamos esse formato, com exemplo comentado, em modelo BIRP para evolução de sessão TCC.

Um padrão de baixo domínio e baixo prazer que se repete ao longo de várias semanas também é sinal de rever o plano de tratamento como um todo, não só a tarefa da próxima sessão. Se você organiza o caso a partir de uma conceitualização, vale conferir o Diagrama de Conceitualização Cognitiva (DCC) com modelo para baixar e o plano de tratamento em TCC, da conceitualização aos objetivos.

Como qualquer material de tarefa de casa preenchido pelo paciente, o diário de atividades integra o prontuário e está sujeito ao mesmo prazo de guarda do restante do registro clínico, então vale manter cada semana anexada à sessão em que foi discutida, com data, em vez de dispersa em fotos avulsas.

Baixe o modelo

O pacote de modelos para prontuário e anamnese que acompanha este artigo inclui um modelo de diário de atividades com colunas de horário, atividade, prazer e domínio, pronto para imprimir ou preencher digitalmente com o paciente. Use o formulário abaixo para receber o pacote completo.

No Sessão, cada nota de evolução já fica organizada em blocos separados por sessão, e o histórico do paciente pode ser consultado rapidamente antes de decidir o que programar na semana seguinte.

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